Na aula da última segunda-feira, dia 04, discutimos o encerramento do PBL 7 e iniciamos as reflexões sobre o PBL 8, que aborda uma problemática bastante presente nos cursos das áreas de Engenharia e Tecnologia: ambientes ainda marcados por práticas tradicionais, excessivamente técnicas e, muitas vezes, pouco acolhedoras, especialmente para o público feminino.
Nesse contexto, o novo problema utiliza como base a instituição fictícia Universidade Estadual de Inovação (UEI), que propõe a adoção da abordagem STEAM como estratégia para tornar o ensino mais interdisciplinar, criativo e conectado com situações reais, buscando superar modelos fragmentados de aprendizagem.
Particularmente, eu ainda não havia tido contato com essa abordagem, o que exigiu de mim um esforço maior para compreender não apenas os princípios do STEAM, mas também sua relação com as discussões sobre equidade de gênero.
Nessa perspectiva, já utilizando do material disponibilizado pela dupla responsável pela condução da discussão inicialmente, trago as palavras de Rodrigues-Silva e Alsina (2023) que defendem que STEAM não deve ser entendido apenas como uma metodologia ou uma simples junção de disciplinas, mas como uma abordagem educacional fundamentada na interdisciplinaridade entre Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. Para os autores, essa perspectiva busca superar modelos fragmentados de ensino e promover experiências de aprendizagem mais colaborativas e significativas.
Além disso, Leavy et al. (2023) apontam que as tecnologias emergentes têm ocupado um espaço cada vez maior na educação STEAM, especialmente diante das transformações provocadas pela Quarta Revolução Industrial. Segundo os autores, ferramentas como inteligência artificial, realidade aumentada, robótica e ambientes digitais colaborativos contribuem para o desenvolvimento de habilidades como criatividade, resolução de problemas e pensamento crítico.
Entretanto, os estudos também alertam que o simples uso da tecnologia não garante inovação pedagógica, o que já acaba se associando diretamente com o que foi visto até o momento dentro da disciplina. Leavy et al. (2023) destacam que é necessário repensar currículo, metodologias e práticas docentes para que os recursos tecnológicos façam sentido no processo educativo.
Essa reflexão dialoga diretamente com o estudo de Kostaki e Linardakis (2025), que investigou o impacto de intervenções STEAM apoiadas por Objetos Digitais de Aprendizagem (DLOs). Os autores identificaram que professores que participaram de experiências formativas estruturadas passaram a demonstrar maior aceitação e valorização do uso pedagógico das tecnologias digitais.
A partir desse momento, e com base nas perguntas levantadas pela equipe da qual faço parte, passei a refletir e buscar possíveis respostas para os desafios apresentados no PBL, relacionando as discussões sobre STEAM, tecnologias educacionais e equidade de gênero no contexto da formação em Engenharia e Tecnologia.
1. Como estruturar uma formação para o uso de artefatos STEAM de modo que transcenda a dimensão puramente técnica e fragmentada?
A formação docente precisa ultrapassar a lógica do treinamento técnico. Não basta ensinar apenas o funcionamento de ferramentas digitais, é necessário discutir suas possibilidades pedagógicas e sociais. Nesse sentido, Rodrigues-Silva e Alsina (2023) argumentam que STEAM deve ser compreendido como uma abordagem interdisciplinar capaz de integrar diferentes áreas do conhecimento em torno de problemas reais.
Uma possibilidade seria desenvolver formações baseadas em projetos colaborativos, reunindo docentes de diferentes áreas para construir soluções integradas. Assim, professores de Matemática, Ciências, Artes e Tecnologia poderiam compartilhar experiências e elaborar práticas que relacionem criatividade, investigação e resolução de problemas.
Além disso, as formações devem incentivar reflexão crítica sobre o papel das tecnologias na educação. Kostaki e Linardakis (2025) demonstram que professores passam a perceber maior relevância nos recursos digitais quando conseguem relacioná-los a experiências pedagógicas significativas.
2. Como fomentar a criação de grupos de afinidade como estratégia de atração e engajamento do público feminino nas áreas de Engenharia e Tecnologia?
Os grupos de afinidade podem funcionar como espaços de acolhimento, pertencimento e fortalecimento da participação feminina nas áreas tecnológicas. Muitas estudantes acabam se afastando desses cursos devido à ausência de representatividade e à permanência de ambientes competitivos e excludentes.
Nesse contexto, iniciativas como mentorias, rodas de conversa, clubes de programação e oficinas colaborativas podem contribuir para fortalecer a permanência das mulheres nessas áreas. A própria abordagem STEAM favorece essa perspectiva ao integrar dimensões criativas, humanas e sociais ao ensino tecnológico.
Leavy et al. (2023) destacam que existe uma preocupação crescente em ampliar a participação de mulheres e grupos historicamente sub-representados nas áreas STEM e STEAM, justamente porque essas áreas ainda reproduzem desigualdades estruturais.
3. A implementação da abordagem STEAM exige, obrigatoriamente, a utilização de softwares?
Não necessariamente. Embora os softwares ampliem possibilidades de interação, colaboração e criação, STEAM não depende exclusivamente de tecnologias digitais. Rodrigues-Silva e Alsina (2023) afirmam que STEAM é прежде de tudo uma abordagem interdisciplinar, baseada na integração entre áreas do conhecimento.
Dessa forma, experiências STEAM podem ocorrer por meio de atividades práticas, projetos colaborativos, construções manuais, experimentos científicos, dramatizações e resolução de problemas cotidianos, mesmo sem o uso de softwares.
As tecnologias digitais podem potencializar essas experiências, mas não constituem uma exigência obrigatória. O mais importante é garantir práticas educativas que promovam criatividade, colaboração, investigação e participação ativa dos estudantes.
Referências
LEAVY, Aisling et al. The prevalence and use of emerging technologies in STEAM education: A systematic review of the literature. Journal of Computer Assisted Learning, v. 39, p. 1061–1082, 2023.
KOSTAKI, Stela-Marina; LINARDAKIS, Michalis. From doubt to adoption: impact of a STEAM-based intervention on teachers’ perceptions and use of digital learning objects. Journal of Computers in Education, 2025.
RODRIGUES-SILVA, Jefferson; ALSINA, Ángel. Conceptualising and framing STEAM education: what is (and what is not) this educational approach?. Texto Livre, Belo Horizonte, v. 16, 2023.