quarta-feira, 15 de abril de 2026

Quando a quadrilha também é tecnologia


Tava aqui no trabalho quando, num daqueles instantes de pensamento que foge longe, me peguei refletindo sobre uma parte muito importante da minha vida: a que eu dedico à cultura popular, à quadrilha junina.

Sim, além de estudante, pai, esposo e servidor público, eu também sou diretor da Quadrilha Junina Amanhecer no Sertão, lá do Benedito Bentes. Uma quadrilha que nasceu na Rua C4, dentro do bairro, e que, nesse último final de semana, completou 24 anos de história.

E não é qualquer história.

Talvez o detalhe mais impressionante, pelo menos pra mim, seja esse: hoje, somos a atual melhor quadrilha do Nordeste. Um título que veio no ano passado, de forma tão marcante que, ainda durante a apresentação, o público já gritava que éramos campeões.

Tem um vídeo daquela noite, lá em Goiana-PE, que não me deixa esquecer disso.


Mas, no meio desse orgulho todo, vem uma pergunta que sempre aparece, dos outros e, às vezes, até minha: por que tudo isso?

Como é que essas partes tão diferentes da minha vida conseguem existir juntas?
Como é que eu consigo ser, ao mesmo tempo, tudo isso?

Não é raro me perguntarem por que eu faço coisas tão distintas.
E, pra ser sincero, pra mim isso sempre foi muito natural.

Só que, talvez pela primeira vez, eu tô tentando organizar esse pensamento.
Colocar em palavras.

Porque, no fundo, eu não vejo tanta distância assim entre esses mundos.
Pelo contrário, eu começo a enxergar conexões.

E talvez seja exatamente isso que me trouxe até aqui, escrevendo.

Tem gente que acha que tecnologia é só o que cabe na tela.

Aplicativo, inteligência artificial, plataforma digital.

Eu também estudo isso.
Pesquiso, escrevo, discuto.

Mas foi dentro de uma quadra, no meio de um ensaio de quadrilha junina, para quem não sabe, ali, nada é improviso, mesmo quando parece.

Cada passo tem uma matemática.
Cada figurino carrega escolhas.
Cada espetáculo nasce de meses de conversa, conflito, ajuste, criação coletiva.

A quadrilha não começa em junho, inclusive esse ano em setembro de 2025 já estava acontecendo ensaios.
Ela começa muito antes, quando alguém tem uma ideia.
Quando um tema surge.
Quando um grupo decide acreditar.

E, aos poucos, tudo vai sendo construído:
roteiro, coreografia, cenário, figurino, identidade visual, comunicação.

Isso também é tecnologia.

Não no sentido mais comum da palavra, mas no sentido mais profundo.
Tecnologia como produção humana.
Como saber acumulado.
Como prática social.

Álvaro Vieira Pinto alerta que não dá pra entender tecnologia como algo neutro ou separado da vida. Ela é sempre resultado do trabalho humano, carregada de intenção, de contexto, de história. Ao menos foi isso que compreendi

E quando eu olho pra dentro da quadrilha, eu vejo exatamente isso.

Vejo gente aprendendo fazendo.
Vejo conhecimento sendo passado sem precisar de manual.
Vejo solução sendo criada no limite do recurso.
Vejo estética sendo construída com identidade, com território, com pertencimento.

Vejo tecnologia.

Ao mesmo tempo, a gente também está no digital.
Está no Instagram, nos vídeos, nas campanhas, no engajamento que ultrapassa a quadra e chega em milhares de pessoas.

O espetáculo não termina quando a música acaba.
Ele continua circulando.

E aí tudo se conecta.

A quadrilha, que muita gente ainda enxerga só como tradição, na verdade opera como um sistema complexo: mistura arte, comunicação, organização, estratégia e inovação, até porque precisa se destacar de alguma forma ano após ano para se manter viva.

É cultura popular, mas também é linguagem multimidiática.
É tradição, mas também é reinvenção constante.

Talvez o problema nunca tenha sido a falta de tecnologia nesses espaços.
Talvez o problema seja o nosso olhar limitado sobre o que é tecnologia.

Porque quando a gente amplia esse conceito, muita coisa muda.

A gente começa a perceber que inovação não nasce só em laboratório.
Ela nasce também na periferia, na cultura, no coletivo.

Nas mãos de quem cria com o que tem.
E, muitas vezes, cria melhor.

Esse semestre talvez eu tenha tornado ainda mais concreto a ideia de que tecnologia não é só ferramenta.

É construção humana.
É relação.
É cultura.

E, sim, a quadrilha também é tecnologia.


Será que tudo isso faz sentido?

Tecnologia, aprendizagem e pensamento: entre aproximações e tensões teóricas

Hoje inicio esse texto deixando claro, logo de imediato, que a leitura de Álvaro Vieira Pinto, especialmente nos capítulos XIV e XV, gera boas reflexões. Ao longo do estudo dirigido, o que mais me chamou atenção não foi apenas o que o autor afirma, mas o que ele de certa forma nos obriga a questionar: afinal, o que entendemos por tecnologia? Isso é bem recorrente no meu ponto de vista, inclusive conciliando com boa parte das discussões que temos desde o início da disciplina. 

Aproximações teóricas

No que diz respeito a aproximação entre os autores indicados, um ponto central de convergência entre Vieira Pinto e Pierre Lévy está na recusa da neutralidade da técnica. Ambos rejeitam a ideia de tecnologia como algo externo ao ser humano. Isso fica evidente quando Lévy afirma que “novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática” (LÉVY, 1993, p. 7), indicando que a técnica reorganiza a própria cognição. Já Vieira Pinto, por sua vez, vai além ao afirmar que a tecnologia é expressão do trabalho humano e resultado de um processo histórico. Nesse sentido, os dois autores se assemelham no entendimento de que a técnica não é apenas ferramenta, mas algo que participa da constituição da vida humana.

Essa aproximação também pode ser vista em diálogo com o que é visto nos livros de Castells e Van Dijk. Ambos mostram que a tecnologia estrutura a sociedade contemporânea, seja na forma da sociedade em rede (CASTELLS), seja como infraestrutura invisível que organiza a vida social (VAN DIJK). Ou seja, há um consenso: a tecnologia não é neutra e está profundamente integrada às relações sociais.

Divergências teóricas

Aqui, talvez seja o ponto de maior dificuldade e exigência dentro do estudo dirigido para mim. O esforço para encontrar divergências sempre é significativo e apesar dessas aproximações, é muito claro que é aqui que entendo que tudo se torna ainda mais produtivas, e talvez mais importantes.

Dessa forma, um ponto que me chama atenção e talvez a principal tensão identificada está na centralidade do trabalho em Vieira Pinto versus a centralidade da cognição em Lévy.

Enquanto Lévy enfatiza que as tecnologias reorganizam as formas de pensar (ecologia cognitiva), Vieira Pinto insiste que não podemos compreender a tecnologia sem considerar o trabalho que a produz. Isso muda o foco da análise. Em Lévy, a técnica aparece como mediadora do pensamento; em Vieira Pinto, ela é antes de tudo resultado de relações históricas e materiais.

Essa diferença me leva a acreditar que tudo deixa de ser apenas teórica e passa para uma perspectiva política.

Ao enfatizar o trabalho, Vieira Pinto evita que a tecnologia seja vista como algo autônomo. Ele combate o risco de fetichização da técnica. Já Lévy, embora também rejeite a neutralidade, tende a enfatizar mais os efeitos da tecnologia sobre o pensamento do que suas condições de produção.

Outra divergência importante aparece quando pensamos em Castells. O autor reconhece que a tecnologia está ligada à estrutura social, mas sua análise está muito voltada para os efeitos da revolução informacional, como as redes, os fluxos e a globalização. Vieira Pinto, por outro lado, propõe uma crítica mais radical, ao recolocar o ser humano como produtor da tecnologia, e não apenas como sujeito impactado por ela.

Van Dijk acrescenta a esse debate sua perspectiva quando mostrar que as redes criam novas formas de dependência. Isso me fez perceber que, mesmo quando se ampliam possibilidades, as tecnologias também podem reforçar desigualdades e mecanismos de controle, algo que dialoga diretamente com a preocupação de Vieira Pinto com a ideologia e a consciência.

Aprendizagem

A parte mais provocativa para mim foi a concepção de aprendizagem em Vieira Pinto. Diferente de uma visão tradicional, aprender não é acumular conteúdos, mas transformar a relação com o mundo. Inclusive isso dialoga diretamente com o cenário a partir de uma lógica de Rede. Se tudo está conectado, se tudo está a disposição a qualquer momento, não seria mais útil pensar como encontrar, ao invés de simplesmente acumular de forma desordenada? 

Quando conecto essa ideia com Lévy, percebo que as tecnologias digitais realmente ampliam formas de aprender, contudo isso não garante, por si só, uma aprendizagem crítica. Existe o risco de uma aprendizagem adaptativa, em que o sujeito apenas se ajusta às tecnologias, sem compreendê-las.

E aqui está uma das maiores tensões que levo desse estudo: usar tecnologia não significa compreendê-la e interagir não significa transformar

Reflexão final

Pra finalizar, se Lévy nos ajuda a entender como a tecnologia transforma o pensamento, Vieira Pinto nos lembra que precisamos perguntar quem produz essa tecnologia, para quem e em quais condições.

Essa talvez seja a principal contribuição do autor: recolocar a tecnologia dentro da história, e, com isso, recolocar a educação dentro de um projeto de transformação, e não apenas de adaptação.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Aprendizagem móvel: tecnologia com propósito

aprendizagem móvel mostra que ensinar não precisa mais estar limitado à sala de aula. Com o uso de dispositivos como celulares e tablets, o aprendizado pode acontecer de forma mais dinâmica, participativa e conectada com o cotidiano dos alunos.


No entanto, o ponto central não é a tecnologia em si, mas como ela é utilizada. Quando há intencionalidade pedagógica, esses recursos fortalecem a autonomia, o engajamento e a construção do conhecimento. Mais do que usar tecnologia, o desafio é usá-la com sentido.


Vídeo: 


terça-feira, 7 de abril de 2026

Repensando o uso de dispositivos digitais na prática docente

A aula da última segunda-feira (7) começou com um momento de partilha e reflexão sobre o percurso que temos construído na disciplina. Na primeira parte, finalizamos o PBL sobre Tecnologias Digitais no Ensino: possibilidades e limites.

Particularmente, tenho percebido o quanto as discussões ampliam meu olhar sobre o tema, trazendo novas perspectivas e tirando a tecnologia daquele lugar mais superficial do senso comum. Um ponto que me chamou atenção, e que passou despercebido por mim na construção da linha do tempo, foi a importância de analisá-la a partir do olhar da própria época, e não com os critérios de hoje. Isso muda tudo, porque permite compreender melhor os avanços, as limitações e o contexto em que as políticas foram pensadas e implementadas.

Na segunda parte da aula, ao entrar no novo PBL, me identifiquei com a situação de Marina. Não necessariamente pela resistência à tecnologia, mas pela forma como, muitas vezes, a tratamos como algo à parte do processo pedagógico, quase um complemento, e não como parte da construção do conhecimento.

A história dela evidencia um cenário cada vez mais comum: alunos hiperconectados e uma sala de aula que ainda não acompanha esse ritmo. E isso não acontece por falta de interesse, mas, muitas vezes, por falta de compreensão, segurança e, principalmente, intencionalidade no uso das tecnologias.

Integrar dispositivos móveis não significa transformar a aula em um festival de aplicativos. Pelo contrário, o equilíbrio está em uma lógica simples, onde usar a tecnologia quando ela realmente contribui para a aprendizagem, e não apenas porque está disponível. Quando bem utilizada, ela não sobrecarrega, ela potencializa o processo de aprendizagem.

domingo, 5 de abril de 2026

Autoavaliação: entre o que eu pensava e o que estou aprendendo a ver

Chegar à metade da disciplina tem sido, para mim, mais do que um marco temporal. É um momento de olhar com mais atenção para o meu próprio processo de aprendizagem, especialmente considerando que também me aproximo de uma etapa importante da minha trajetória acadêmica, que é a qualificação.

Ao longo das aulas, percebo que fui provocado a revisitar ideias que, em muitos momentos, eu já tratava como consolidadas. No entanto, a disciplina não me levou necessariamente a abandonar essas compreensões, mas a reavaliar a forma como eu as enxergo. Esse movimento tem sido, talvez, um dos aprendizados mais significativos até aqui: entender que aprender não é apenas substituir certezas, mas ampliá-las e, sobretudo, complexificá-las.

A reflexão sobre o papel das tecnologias, por exemplo, ganhou um novo lugar no meu pensamento. Hoje, consigo perceber com mais clareza que elas não podem ser analisadas de forma isolada ou instrumental. Essa compreensão tem atravessado não apenas a minha pesquisa, mas também o meu cotidiano profissional enquanto bibliotecário e o tipo de profissional que busco construir. Nesse sentido, considero que a escolha por essa disciplina foi extremamente acertada, justamente por dialogar de forma tão direta com diferentes dimensões da minha formação.

Em relação à dinâmica do PBL, reconheço que venho tentando, desde o início, assumir uma postura ativa. Busco me posicionar, contribuir com as discussões e expor meus pontos de vista. É claro que, em alguns momentos, essas contribuições ainda partem de percepções mais próximas do senso comum. No entanto, ao longo das discussões, das escutas dos colegas e das leituras realizadas, percebo um deslocamento importante, que passo a sustentar melhor minhas falas, trazendo embasamento teórico e construindo uma argumentação mais crítica. Esse processo não é imediato, mas é visível.

Sobre o portfólio, tem sido um espaço fundamental nesse percurso. Procuro utilizá-lo não como um registro burocrático, mas como um lugar de reflexão. Frequentemente, escrevo buscando problematizar o que foi discutido, e muitas vezes finalizo meus textos com perguntas, não como falta de resposta, mas como estratégia para continuar pensando. Quando olho para minhas primeiras postagens e comparo com as mais recentes, consigo perceber avanços, tanto na forma de escrever quanto na maneira de refletir.

Ainda assim, reconheço que há aspectos que preciso fortalecer na segunda metade da disciplina, que é aprofundar leituras, ampliar ainda mais minha participação e, principalmente, exercitar uma postura cada vez mais crítica e menos acomodada.

Sigo com a sensação de que estou construindo um percurso significativo. E acredito que, ao final da disciplina, ao olhar para trás, conseguirei enxergar uma trajetória que não apenas agregou conhecimentos, mas que também transformou, de forma concreta, a minha maneira de pensar, estudar e atuar.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

[TIMELINE] Evolução da tecnologia educacional no Brasil




Veredito: Os caminhos para uma integração pedagógica mais crítica e interativa das tecnologias digitais passam, antes de tudo, pela superação do uso meramente instrumental dessas ferramentas. Ao observar a trajetória histórica das políticas e experiências no Brasil, percebe-se que o principal problema não foi a ausência de tecnologias, mas a repetição de um modelo em que infraestrutura e acesso apareceram dissociados de formação docente, currículo e práticas pedagógicas. Como mostram Valente e Almeida, faltaram políticas consistentes que articulassem esses elementos de forma equilibrada. Além disso, como defendem Bonilla e Pretto, não basta garantir acesso: é preciso promover apropriação crítica, autoria e produção de conhecimento. Assim, meu veredito é que a integração crítica das tecnologias depende menos da novidade técnica e mais de um projeto pedagógico que coloque estudantes e professores como sujeitos ativos do processo educativo.

Referências:

BRASIL. Ministério da Educação. Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo). Brasília: MEC, 1997.

BRASIL. Ministério da Educação. Programa de Inovação Educação Conectada. Brasília: MEC, 2017.

BONILLA, Maria Helena Silveira; PRETTO, Nelson De Luca (org.). Inclusão digital: polêmica contemporânea. Salvador: EDUFBA, 2011.

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Pesquisa TIC Educação 2020. São Paulo: CGI.br, 2021.

PEDRÓ, Francesc. Applications of artificial intelligence to higher education: possibilities, evidence, and challenges. IUL Research, v. 1, n. 1, 2020.

VALENTE, José Armando; ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Tecnologias digitais, tendências atuais e o futuro da educação. Panorama Setorial da Internet, ano 14, n. 2, jun. 2022.



 

Quando a quadrilha também é tecnologia

Tava aqui no trabalho quando, num daqueles instantes de pensamento que foge longe, me peguei refletindo sobre uma parte muito importante da ...