No texto disponibilizado anteriormente aqui no blog, compartilhei algumas impressões da primeira aula da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, especialmente a partir da pergunta que abriu a discussão: o que é tecnologia?. A princípio, parecia uma questão simples, como já dito. No entanto, quanto mais avançávamos na conversa e na leitura de Álvaro Vieira Pinto, mais ficava evidente que aquilo que muitas vezes tratamos como algo evidente, tecnologia como sinônimo de computadores ou plataformas digitais, é, na verdade, uma compreensão bastante limitada.
Álvaro Vieira Pinto argumenta que tecnologia não deve ser entendida apenas como máquinas ou dispositivos. Para o autor, tecnologia corresponde ao conjunto de conhecimentos, técnicas e processos desenvolvidos historicamente pelo ser humano para transformar a realidade (PINTO, 2005). Essa definição desloca o debate do campo dos artefatos para o campo das práticas sociais e do conhecimento humano.
Foi justamente nesse ponto que o comentário recebido no blog, feito pelo Professor, trouxe uma provocação importante e que fazia uma relação com a discussão da disciplina e a relação com a tese que estou desenvolvendo. Afinal, ao estudar inteligência artificial aplicada à educação e livros didáticos digitais (objeto de estudo), não estaria eu mesmo correndo o risco de reduzir tecnologia apenas ao universo digital?
Essa inquietação é bastante pertinente. Em muitos debates contemporâneos sobre educação e inovação, a presença de tecnologias digitais costuma ser tomada quase automaticamente como evidência de transformação pedagógica. Plataformas virtuais, ambientes digitais de aprendizagem, inteligência artificial, sistemas de recomendação e análise de dados aparecem frequentemente como sinônimos de inovação.
Contudo, pesquisas sobre livros didáticos digitais mostram que a relação entre tecnologia e aprendizagem é mais complexa do que muitas vezes imaginamos. Weng et al. (2018), por exemplo, investigaram o impacto de diferentes níveis de interatividade em livros digitais utilizados por estudantes. O estudo comparou um livro digital interativo com uma versão em PDF estático e encontrou um resultado curioso: estudantes que utilizaram o material estático obtiveram melhor desempenho em testes, embora aqueles que utilizaram o material interativo tenham relatado maior engajamento e percepção de aprendizagem. Como destacam os autores, “students using the static PDF e-textbook performed better on the unit final test” (WENG et al., 2018).
Esse tipo de resultado mostra que a simples incorporação de recursos multimídia ou interativos não garante, por si só, melhores resultados educacionais. Em outras palavras, a presença da tecnologia não transforma automaticamente as práticas de ensino.
Por outro lado, pesquisas mais recentes indicam que os livros digitais podem evoluir para sistemas muito mais sofisticados. Estudos sobre livros didáticos inteligentes mostram que essas plataformas podem utilizar inteligência artificial para acompanhar o comportamento de leitura dos estudantes, identificar dificuldades e oferecer recomendações personalizadas. Como apontam Jiang et al. (2023), os chamados intelligent textbooks utilizam técnicas de IA para oferecer orientação personalizada aos estudantes.
Esses sistemas registram dados detalhados sobre a interação dos estudantes com o material, e isso implica no tempo de leitura, anotações, navegação entre páginas, respostas a exercícios, e utilizam essas informações para modelar processos de aprendizagem. De acordo com Boulanger e Kumar (2019), esses dados permitem compreender padrões de leitura e desenvolver mecanismos de personalização educacional.
Nesse cenário, o livro didático deixa de ser apenas um suporte de conteúdo e passa a funcionar como um ambiente de aprendizagem inteligente, integrado a plataformas digitais e sistemas de análise de dados. A evolução histórica desse campo mostra que os livros digitais vêm incorporando progressivamente elementos de interatividade, modelagem do estudante e mineração de dados educacionais (BRUSILOVSKY; SOSNOVSKY; THAKER, 2022; SOSNOVSKY; BRUSILOVSKY; LAN, 2025).
Mas a provocação recebida no blog aponta para algo ainda mais profundo. Se tecnologia não se limita às ferramentas digitais, então talvez precisemos ampliar ainda mais o olhar. Talvez a própria organização da universidade, seus currículos, seus métodos de avaliação, suas formas de produzir conhecimento e organizar disciplinas, também possa ser compreendida como uma tecnologia.
Essa perspectiva muda completamente o modo como pensamos inovação educacional. Em vez de perguntar apenas quais ferramentas digitais estamos utilizando, talvez seja necessário perguntar quais tecnologias institucionais estruturam o modo como ensinamos e aprendemos.
O currículo, por exemplo, pode ser visto como uma tecnologia de organização do conhecimento. Os métodos de avaliação funcionam como tecnologias de regulação da aprendizagem. Até mesmo a aula expositiva, tão presente na tradição universitária, pode ser compreendida como uma tecnologia pedagógica desenvolvida historicamente.
Nesse sentido, pensar tecnologia na educação exige olhar não apenas para dispositivos e plataformas, mas também para formas de organizar o ensino, estruturar o conhecimento e produzir experiências de aprendizagem.
Talvez seja justamente aí que a provocação final faça mais sentido: se a universidade também opera por meio de tecnologias, isso inclui curriculares, pedagógicas e institucionais, então inovar não significa apenas incorporar ferramentas digitais, mas também repensar as próprias estruturas que organizam o ensino superior.
E talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes que emergiram dessas primeiras aulas: quando falamos em tecnologia na educação, estamos falando apenas de ferramentas ou também das formas pelas quais organizamos o próprio ato de ensinar?
Referências
BOULANGER, David; KUMAR, Vivekanandan. An overview of recent developments in intelligent e-textbooks and reading analytics. Athabasca University, 2019.
BRUSILOVSKY, Peter; SOSNOVSKY, Sergey; THAKER, Khushboo. The return of intelligent textbooks. AI Magazine, 2022.
JIANG, Siyao et al. Recent advances in intelligent textbooks for better learning. 2023.
PINTO, Álvaro Vieira. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
SOSNOVSKY, Sergey; BRUSILOVSKY, Peter; LAN, Andrew. Intelligent textbooks. International Journal of Artificial Intelligence in Education, 2025.
WENG, Cathy; OTANGA, Sarah; WENG, Apollo; COX, Joanne. Effects of interactivity in e-textbooks on 7th graders science learning and cognitive load. Computers & Education, v. 120, p. 172–184, 2018.