terça-feira, 17 de março de 2026

Tecnologia, aprendizagem e os limites da inovação

Ao organizar visualmente os debates, ficou ainda mais evidente algo que já aparecia nas pesquisas sobre livros didáticos digitais citadas anteriormente, como em Weng et al. (2018): a tecnologia, por si só, não garante aprendizagem. Nesse processo, o infográfico me ajudou a compreender que, embora a interatividade possa aumentar o engajamento dos estudantes, ela não necessariamente se traduz em melhor desempenho acadêmico. Da mesma forma, sistemas inteligentes, como os discutidos por Jiang et al. (2023), ampliam as possibilidades de acompanhamento e personalização da aprendizagem, mas não substituem as decisões pedagógicas que orientam o ensino. Assim, torna-se mais claro que a inovação educacional depende muito mais das formas de uso e apropriação da tecnologia do que da tecnologia em si. Além disso, o exercício também evidenciou a necessidade de ampliar o olhar para outras dimensões tecnológicas, especialmente aquelas que não se restringem ao digital, mas que igualmente estruturam e influenciam os processos educativos.

Referências
WENG, Cathy et al. The impact of interactivity in e-textbooks on student learning outcomes. 2018.
JIANG, Siyao et al. Recent advances in intelligent textbooks for better learning. 2023.

terça-feira, 10 de março de 2026

Inovação na educação: Livros digitais, Inteligência Artificial e Novas formas de aprender

 


Quando a tecnologia entra na sala de aula… ou talvez sempre tenha estado lá

No texto disponibilizado anteriormente aqui no blog, compartilhei algumas impressões da primeira aula da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, especialmente a partir da pergunta que abriu a discussão: o que é tecnologia?. A princípio, parecia uma questão simples, como já dito. No entanto, quanto mais avançávamos na conversa e na leitura de Álvaro Vieira Pinto, mais ficava evidente que aquilo que muitas vezes tratamos como algo evidente, tecnologia como sinônimo de computadores ou plataformas digitais, é, na verdade, uma compreensão bastante limitada.

Álvaro Vieira Pinto argumenta que tecnologia não deve ser entendida apenas como máquinas ou dispositivos. Para o autor, tecnologia corresponde ao conjunto de conhecimentos, técnicas e processos desenvolvidos historicamente pelo ser humano para transformar a realidade (PINTO, 2005). Essa definição desloca o debate do campo dos artefatos para o campo das práticas sociais e do conhecimento humano.

Foi justamente nesse ponto que o comentário recebido no blog, feito pelo Professor, trouxe uma provocação importante e que fazia uma relação com a discussão da disciplina e a relação com a tese que estou desenvolvendo. Afinal, ao estudar inteligência artificial aplicada à educação e livros didáticos digitais (objeto de estudo), não estaria eu mesmo correndo o risco de reduzir tecnologia apenas ao universo digital?

Essa inquietação é bastante pertinente. Em muitos debates contemporâneos sobre educação e inovação, a presença de tecnologias digitais costuma ser tomada quase automaticamente como evidência de transformação pedagógica. Plataformas virtuais, ambientes digitais de aprendizagem, inteligência artificial, sistemas de recomendação e análise de dados aparecem frequentemente como sinônimos de inovação.

Contudo, pesquisas sobre livros didáticos digitais mostram que a relação entre tecnologia e aprendizagem é mais complexa do que muitas vezes imaginamos. Weng et al. (2018), por exemplo, investigaram o impacto de diferentes níveis de interatividade em livros digitais utilizados por estudantes. O estudo comparou um livro digital interativo com uma versão em PDF estático e encontrou um resultado curioso: estudantes que utilizaram o material estático obtiveram melhor desempenho em testes, embora aqueles que utilizaram o material interativo tenham relatado maior engajamento e percepção de aprendizagem. Como destacam os autores, “students using the static PDF e-textbook performed better on the unit final test” (WENG et al., 2018).

Esse tipo de resultado mostra que a simples incorporação de recursos multimídia ou interativos não garante, por si só, melhores resultados educacionais. Em outras palavras, a presença da tecnologia não transforma automaticamente as práticas de ensino.

Por outro lado, pesquisas mais recentes indicam que os livros digitais podem evoluir para sistemas muito mais sofisticados. Estudos sobre livros didáticos inteligentes mostram que essas plataformas podem utilizar inteligência artificial para acompanhar o comportamento de leitura dos estudantes, identificar dificuldades e oferecer recomendações personalizadas. Como apontam Jiang et al. (2023), os chamados intelligent textbooks utilizam técnicas de IA para oferecer orientação personalizada aos estudantes.

Esses sistemas registram dados detalhados sobre a interação dos estudantes com o material, e isso implica no tempo de leitura, anotações, navegação entre páginas, respostas a exercícios, e utilizam essas informações para modelar processos de aprendizagem. De acordo com Boulanger e Kumar (2019), esses dados permitem compreender padrões de leitura e desenvolver mecanismos de personalização educacional.

Nesse cenário, o livro didático deixa de ser apenas um suporte de conteúdo e passa a funcionar como um ambiente de aprendizagem inteligente, integrado a plataformas digitais e sistemas de análise de dados. A evolução histórica desse campo mostra que os livros digitais vêm incorporando progressivamente elementos de interatividade, modelagem do estudante e mineração de dados educacionais (BRUSILOVSKY; SOSNOVSKY; THAKER, 2022; SOSNOVSKY; BRUSILOVSKY; LAN, 2025).

Mas a provocação recebida no blog aponta para algo ainda mais profundo. Se tecnologia não se limita às ferramentas digitais, então talvez precisemos ampliar ainda mais o olhar. Talvez a própria organização da universidade, seus currículos, seus métodos de avaliação, suas formas de produzir conhecimento e organizar disciplinas, também possa ser compreendida como uma tecnologia.

Essa perspectiva muda completamente o modo como pensamos inovação educacional. Em vez de perguntar apenas quais ferramentas digitais estamos utilizando, talvez seja necessário perguntar quais tecnologias institucionais estruturam o modo como ensinamos e aprendemos.

O currículo, por exemplo, pode ser visto como uma tecnologia de organização do conhecimento. Os métodos de avaliação funcionam como tecnologias de regulação da aprendizagem. Até mesmo a aula expositiva, tão presente na tradição universitária, pode ser compreendida como uma tecnologia pedagógica desenvolvida historicamente.

Nesse sentido, pensar tecnologia na educação exige olhar não apenas para dispositivos e plataformas, mas também para formas de organizar o ensino, estruturar o conhecimento e produzir experiências de aprendizagem.

Talvez seja justamente aí que a provocação final faça mais sentido: se a universidade também opera por meio de tecnologias, isso inclui curriculares, pedagógicas e institucionais, então inovar não significa apenas incorporar ferramentas digitais, mas também repensar as próprias estruturas que organizam o ensino superior.

E talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes que emergiram dessas primeiras aulas: quando falamos em tecnologia na educação, estamos falando apenas de ferramentas ou também das formas pelas quais organizamos o próprio ato de ensinar?

Referências

BOULANGER, David; KUMAR, Vivekanandan. An overview of recent developments in intelligent e-textbooks and reading analytics. Athabasca University, 2019.

BRUSILOVSKY, Peter; SOSNOVSKY, Sergey; THAKER, Khushboo. The return of intelligent textbooks. AI Magazine, 2022.

JIANG, Siyao et al. Recent advances in intelligent textbooks for better learning. 2023.

PINTO, Álvaro Vieira. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

SOSNOVSKY, Sergey; BRUSILOVSKY, Peter; LAN, Andrew. Intelligent textbooks. International Journal of Artificial Intelligence in Education, 2025.

WENG, Cathy; OTANGA, Sarah; WENG, Apollo; COX, Joanne. Effects of interactivity in e-textbooks on 7th graders science learning and cognitive load. Computers & Education, v. 120, p. 172–184, 2018.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Mapa conceitual - Tecnologia, Cultura Digital e IAED

 


Quando a pergunta parece simples demais: afinal, o que é tecnologia?

A primeira aula da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, ou carinhosamente chamada de TDE, realizada no dia 02 de março de 2026, começou com uma pergunta que, à primeira vista, parece simples: o que é tecnologia?

Bastaram alguns minutos de conversa para perceber que a pergunta talvez não seja tão simples assim, ou pelo menos, bem mais distante do senso comum do que parece.

Vivemos cercados por tecnologias digitais. Falamos o tempo inteiro sobre plataformas, aplicativos, atualmente mais ainda sobre a tal inteligência artificial, recursos educacionais digitais e tantas outras ferramentas que já fazem parte do nosso cotidiano. Colocamos a tecnologia numa perspectiva que naturaliza desigualdades e a apresentamos de uma forma que ela é posta dentro de um momento histórico dominante como ápice da civilização. Porém, quando somos provocados a pensar mais profundamente sobre o que realmente significa tecnologia, as respostas começam a ficar menos óbvias.

Como ponto de partida para essa discussão, o professor Fernando Pimentel indicou a leitura de um capítulo do livro O conceito de tecnologia, de Álvaro Vieira Pinto. A partir dessa leitura, a aula se desenvolveu de forma bastante reflexiva, quase como um convite para revisitar ideias que muitas vezes utilizamos sem questionar.

E aí começam as inquietações.

Será que quando falamos de tecnologia estamos pensando apenas em ferramentas digitais? Em computadores, aplicativos e plataformas? Ou tecnologia também envolve processos, formas de organização, modos de produzir conhecimento e até maneiras de interpretar o mundo?

Essas perguntas acabam inevitavelmente atravessando nossas próprias pesquisas. No meu caso, enquanto doutorando, foi impossível não relacionar essa discussão com a construção da minha própria tese. Até que ponto, ao falar de tecnologias na educação, eu mesmo não acabo restringindo o conceito apenas ao universo digital? Essa reflexão também provoca um olhar mais amplo sobre a própria inteligência artificial, que muitas vezes aparece apenas como uma ferramenta inovadora ou solução tecnológica. Talvez o desafio esteja justamente em pensar a IA não de forma isolada, mas inserida em um contexto maior, que envolve diferentes tecnologias, processos e práticas educacionais.

Talvez o aspecto mais interessante dessa primeira aula tenha sido justamente esse: mais perguntas do que respostas. Sim, eu sei que o teor provocativo tem esse papel.

Então talvez seja exatamente assim que uma disciplina como essa precise começar, nos tirando de um lugar confortável de certezas e nos colocando diante da necessidade de repensar conceitos que, muitas vezes, usamos de forma automática no cotidiano acadêmico.

No fim das contas, a pergunta continua aberta:

quando falamos de tecnologia, estamos falando exatamente de quê?

Uma breve apresentação

Este espaço foi criado como um diário de reflexões sobre a disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, ministrada pelo professor Fernando Pimentel. Ao longo do semestre, este blog será utilizado para registrar percepções, aprendizados e questionamentos que surgirem a partir das discussões realizadas em sala de aula.

Meu nome é Bruno Melo. Sou bibliotecário de formação, quase jornalista, faltando apenas o trabalho de conclusão de curso para a obtenção do título, especialista em Tecnologias Web para Negócios, mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atualmente doutorando em Ensino pela Rede Nordeste de Ensino (RENOEN), na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

A proposta deste espaço é compartilhar reflexões sobre os temas discutidos na disciplina, buscando relacionar os conteúdos abordados com o contexto da cultura digital e com os desafios contemporâneos no ensino.

Assim, este blog funcionará como um registro do percurso formativo ao longo da disciplina, reunindo impressões, análises e aprendizados construídos ao longo dessa experiência.

Quando a quadrilha também é tecnologia

Tava aqui no trabalho quando, num daqueles instantes de pensamento que foge longe, me peguei refletindo sobre uma parte muito importante da ...