Tava aqui no trabalho quando, num daqueles instantes de pensamento que foge longe, me peguei refletindo sobre uma parte muito importante da minha vida: a que eu dedico à cultura popular, à quadrilha junina.
Sim, além de estudante, pai, esposo e servidor público, eu também sou diretor da Quadrilha Junina Amanhecer no Sertão, lá do Benedito Bentes. Uma quadrilha que nasceu na Rua C4, dentro do bairro, e que, nesse último final de semana, completou 24 anos de história.
E não é qualquer história.
Talvez o detalhe mais impressionante, pelo menos pra mim, seja esse: hoje, somos a atual melhor quadrilha do Nordeste. Um título que veio no ano passado, de forma tão marcante que, ainda durante a apresentação, o público já gritava que éramos campeões.
Tem um vídeo daquela noite, lá em Goiana-PE, que não me deixa esquecer disso.
Mas, no meio desse orgulho todo, vem uma pergunta que sempre aparece, dos outros e, às vezes, até minha: por que tudo isso?
Como é que essas partes tão diferentes da minha vida conseguem existir juntas?
Como é que eu consigo ser, ao mesmo tempo, tudo isso?
Não é raro me perguntarem por que eu faço coisas tão distintas.
E, pra ser sincero, pra mim isso sempre foi muito natural.
Só que, talvez pela primeira vez, eu tô tentando organizar esse pensamento.
Colocar em palavras.
Porque, no fundo, eu não vejo tanta distância assim entre esses mundos.
Pelo contrário, eu começo a enxergar conexões.
E talvez seja exatamente isso que me trouxe até aqui, escrevendo.
Tem gente que acha que tecnologia é só o que cabe na tela.
Aplicativo, inteligência artificial, plataforma digital.
Eu também estudo isso.
Pesquiso, escrevo, discuto.
Mas foi dentro de uma quadra, no meio de um ensaio de quadrilha junina, para quem não sabe, ali, nada é improviso, mesmo quando parece.
Cada passo tem uma matemática.
Cada figurino carrega escolhas.
Cada espetáculo nasce de meses de conversa, conflito, ajuste, criação coletiva.
A quadrilha não começa em junho, inclusive esse ano em setembro de 2025 já estava acontecendo ensaios.
Ela começa muito antes, quando alguém tem uma ideia.
Quando um tema surge.
Quando um grupo decide acreditar.
E, aos poucos, tudo vai sendo construído:
roteiro, coreografia, cenário, figurino, identidade visual, comunicação.
Isso também é tecnologia.
Não no sentido mais comum da palavra, mas no sentido mais profundo.
Tecnologia como produção humana.
Como saber acumulado.
Como prática social.
Álvaro Vieira Pinto alerta que não dá pra entender tecnologia como algo neutro ou separado da vida. Ela é sempre resultado do trabalho humano, carregada de intenção, de contexto, de história. Ao menos foi isso que compreendi
E quando eu olho pra dentro da quadrilha, eu vejo exatamente isso.
Vejo gente aprendendo fazendo.
Vejo conhecimento sendo passado sem precisar de manual.
Vejo solução sendo criada no limite do recurso.
Vejo estética sendo construída com identidade, com território, com pertencimento.
Vejo tecnologia.
Ao mesmo tempo, a gente também está no digital.
Está no Instagram, nos vídeos, nas campanhas, no engajamento que ultrapassa a quadra e chega em milhares de pessoas.
O espetáculo não termina quando a música acaba.
Ele continua circulando.
E aí tudo se conecta.
A quadrilha, que muita gente ainda enxerga só como tradição, na verdade opera como um sistema complexo: mistura arte, comunicação, organização, estratégia e inovação, até porque precisa se destacar de alguma forma ano após ano para se manter viva.
É cultura popular, mas também é linguagem multimidiática.
É tradição, mas também é reinvenção constante.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de tecnologia nesses espaços.
Talvez o problema seja o nosso olhar limitado sobre o que é tecnologia.
Porque quando a gente amplia esse conceito, muita coisa muda.
A gente começa a perceber que inovação não nasce só em laboratório.
Ela nasce também na periferia, na cultura, no coletivo.
Nas mãos de quem cria com o que tem.
E, muitas vezes, cria melhor.
Esse semestre talvez eu tenha tornado ainda mais concreto a ideia de que tecnologia não é só ferramenta.
É construção humana.
É relação.
É cultura.
E, sim, a quadrilha também é tecnologia.
Será que tudo isso faz sentido?

Seu texto me fez voltar no tempo… ou melhor, quem foi e quem é quadrilheiro jamais deixará de ser… Estou maravilhado com essa relação que tu fez. Incrível!!!
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